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Bolsa de Valores Sociais

NASCEU A BOLSA DE VALORES DO FUTURO?

Nesta bolsa investe-se em quem põe um nariz de palhaço e entra no quarto de hospital de uma criança doente para a fazer sorrir. Ou em quem evita situações de risco juvenil através do reforço da afectividade entre pais e filhos. Ou ainda de alguém que pretende vender artigos com “defeitos genéticos” para financiar a ajuda aos portadores de Trissomia 21 e valorizar a diferença. Ou mesmo de quem pretende produzir mel para gerar turismo e desenvolvimento comunitário. Nesta bolsa investe-se num futuro melhor, num mundo mais justo e numa sociedade mais humana através de um 3º sector profissional, transparente e eficiente.

Sofia Teixeira

Quando a Companhia Holandesa das Índias Orientais de Amesterdão criou e comercializou, em 1602, as primeiras acções – criando aquela que é por muitos considerada como a primeira Bolsa de Valores do mundo – ninguém imaginava que um dia alguém pudesse investir em palhaços, peças com defeito, abelhas, ou afectividade para ter, não lucro económico, mas social. Mas isso não é surpreendente, porque a verdade é que 400 anos depois, em 2002, também ninguém o imaginava.

Em 2003, Celso Grecco imaginou. Respondendo ao pedido de criação de um projecto de responsabilidade social para a BOVESPA (Bolsa de Valores de São Paulo, Brasil) Celso e a sua equipa da Atitude – Associação pelo Desenvolvimento do Investimento Social – criaram a Bolsa de Valores Sociais (BVS), uma plataforma de encontro entre mecenas e organizações da sociedade civil.

Portugal é o segundo país do mundo e o primeiro na Europa que abraça esta iniciativa elogiada pela UNESCO no Brasil. A implementação em Portugal foi promovida pela Atitude e viabilizada em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação EDP e Euronext Lisboa, os seus parceiros-fundadores em Portugal.


BOAS ACÇÕES E LUCRO SOCIO-AMBIENTAL

Na Bolsa de Valores Sociais também existem acções e investidores, mas os valores transaccionados diferem de um típica Bolsa de Valores. Boas acções podem, em vez de dinheiro, querer dizer crianças com um novo lar, inclusão de pessoas com deficiência ou um planeta menos poluído, pois cada projecto escolhido de uma ONG apresenta um número de acções correspondentes ao financiamento necessário. O investidor, tal como no mercado de capitais, pode escolher os projectos/ acções que desejar em harmonia com o seu conceito de investimento social. Assim, investir na BVS é uma forma de ter lucro social, participando no desenvolvimento social, ambiental e comunitário.

Se a sua organização tem programas inovadores no campo do desenvolvimento humano e social, na sua expressão mais vasta, então pode ter acções “cotadas” em Bolsa. Para isso basta fazer um registo no site da BVS (www.bvs.org.pt) e preencher o formulário online. Se passar essa primeira fase, receberá a visita dos técnicos que farão uma avaliação da sua organização, do projecto com o qual se candidata, e muitas vezes, o ajudam a fazer alguns ajustes de forma a cumprir os critérios de entrada em bolsa. O tempo estimado entre a candidatura online e a entrada em bolsa é de 30 a 45 dias.

Se quer ser investidor, basta também aceder ao site, fazer o seu registo de utilizador, escolher um ou mais dos projectos cotados e fazer a sua doação, que pode ir desde o montante mínimo de 10 euros, correspondente a 10 acções, até à totalidade do valor do projecto. Depois, pode ir acompanhando a evolução do projecto (ou projectos) que financiou com toda a transparência: saber quando fica reunido o valor total, quando se iniciam os trabalhos, que actividades programadas já foram realizadas, que resultados estão a ser conseguidos… e conhecer o lucro social do seu investimento.


A HISTÓRIA POR TRÁS DA HISTÓRIA
Pergunto a Sérgio Figueiredo, Administrador-Delegado da Fundação EDP, como tudo começou. Ri-se e pergunta-me: quer saber a história por trás da história? Sim, é isso. Conta-me que, a convite de Miguel Alves Martins (hoje director do Instituto de Empreendedorismo Social), Celso Grecco veio a Portugal, ao 2º Congresso de Empreendedorismo Social, partilhar a experiência da BVS da Bovespa. Na plateia estava Guilherme Collares Pereira, director de Inovação Social da Fundação EDP, que ficou muito entusiasmado com o projecto e contagiou toda a gente, inclusive Isabel Ucha, da Euronext, também presente no Congresso. E como “não há nada mais poderoso do que a força de uma ideia cujo tempo chegou” (Victor Hugo), rapidamente a Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação EDP e Euronext Lisboa estavam juntas para trazer esta ideia para Portugal.

Na realidade, todos gostaram do que Celso Grecco tinha para contar da experiência brasileira: cerca de 100 projectos financiados, 7 milhões de reais investidos, um enorme ganho de notoriedade para a Bovespa, o reconhecimento e parceria da UNESCO, ONG´s a concretizarem projectos de grande impacto, milhares de pessoas com as suas vidas transformadas, investidores satisfeitos com os resultados dos seus investimentos que comprovam online e dispostos a investir ainda mais...

Luísa Valle, Directora do Programa de Desenvolvimento Humano da Gulbenkian, conta que o que a seduziu no projecto foi sentir que era uma ferramenta que podia fazer com que a responsabilidade social em Portugal desse um verdadeiro “salto no tempo”.

“Neste momento, em Portugal, é complicado exercer a responsabilidade social quer a nível individual, quer a nível das empresas, porque é complicado conhecer bem as organizações e os projectos”, explica. De acordo com Luísa Valle, quando o cidadão comum ou as empresas querem contribuir para uma causa, acham-se por vezes perante um mundo que lhes é desconhecido. Não é fácil responder à pergunta “A quem dar?” e a escolha implica um esforço no sentido de conhecer os projectos, de perceber quem é merecedor da ajuda. A BVS facilita este processo, ao mesmo tempo que explica o projecto em detalhe, oferece garantias da credibilidade e sustentabilidade do projecto e da organização. Isto porque, como frisa Luísa Valle, “fazer o bem não é incompatível com prestar contas”.

Também Isabel Mota, administradora da Gulbenkian, frisa o facto de esta ser uma solução que “intervém na causa dos problemas e não apenas nos efeitos” e que vai permitir que empresas que não podem ter departamentos de responsabilidade social a fazer a avaliação da alocação de recursos possa delegar isso na BVS, tendo uma garantia do mérito e sustentabilidade dos projectos que apoiam. A mesma garantia, afirma, é válida para os particulares, já que, segundo defende, “a responsabilidade não é só das grandes empresas, é de todos.”

O presidente da Euronext Lisboa, Miguel Athayde Marques, afirma que a adesão ao projecto passou sem dúvida não só pelo reconhecimento do valor do projecto, como também pelo grande entusiasmo da Fundação EDP e Fundação Calouste Gulbenkian.

Athayde Marques encara o lançamento deste projecto em Portugal como um teste-piloto à operacionalização desta ideia na Europa. “Gostava muito que, com o sucesso de Portugal, os meus congéneres europeus adoptassem esta ideia. Espera-se que haja um efeito em cadeia nas outras NYSE com o sucesso do caso português”, explica.

Sérgio Figueiredo, da fundação EDP vai mais longe na ambição: uma vez que o projecto alastre e fortaleça, acredita que se possa estar em condições de transformar o investidor social num investidor “normal”: “a última o geração desta BVS é transformá-la numa bolsa que dê não só lucro social, mas possa também ser uma opção de investimento com lucro financeiro.”


PALHAÇOS, AFECTOS, MEL E DIFERENÇAS: OS PRIMEIROS COTADOS NA BVS
Os primeiros quatro projectos cotados em bolsa foram seleccionados pela equipa de Celso Grecco que, seguindo algumas sugestões dos parceiros-fundadores, viajou pelo país à procura de pequenos projectos que primassem pelo seu carácter inovador e sustentável. Embora, segundo Celso, o processo desde a 1ª candidatura online até à eventual cotação em bolsa não demore mais do que 30 a 45 dias, entendeu-se que não faria sentido a bolsa abrir sem acções para vender à semelhança do que aconteceu no Brasil, onde a iniciativa não teve a mesma projecção e cobertura mediática que teve agora em Portugal.

Enquadrados nos 2 grandes grupos temáticos da Bolsa, (Educação e Empreendedorismo Social) os primeiros quatro projectos cotados são o “Centro de Interpretação da Abelha e da Biodiversidade” da Cooperativa Terra Chã, “A Educação é a Melhor Prevenção” da Dianova, “Um Negócio que Faz a Diferença” da APPT21 e o projecto “Rir é o melhor remédio?” da Operação Nariz Vermelho.

A Cooperativa Terra Chã foi constituída em 2001, na pequena aldeia de Chãos em plena Serra de Aire, para inovar os valores do passado para a construção do futuro. Hoje dinamizam a aldeia sobretudo através de projectos Eco-turísticos como a Rota dos Pastores com o seu rebanho comunitário. O projecto “Centro de Interpretação da Abelha e da Biodiversidade” que apresentam em bolsa visa por um lado, a valorização de produtos locais e, por outro, o reforço da atractividade do local enquanto destino de turismo de natureza. “O projecto envolve a construção de uma central meleira, para uma produção de 25 toneladas de mel por ano”, explica Júlio Ricardo, da Terra Chã, “por outro lado, resolve os problemas a nível da produção e comercialização do mel dos nossos apicultores e vai ser um ponto de visitação dentro das nossas actividades da cooperativas Terra Chã.

Rui Martins da Dianova explica, que o projecto apresentado “reside na criação de um parque lúdico-pedagógico de educação e formação orientado para pais e filhos.” Aquilo que é pretendido é estimular a relações e as afectividades como forma de prevenir comportamentos de risco – associados ou não ao consumo de substâncias ilícitas – e, por outro lado, combater o pouco tempo que os pais hoje dedicam aos filhos e que, muitas vezes, é um dos motivos pelos quais os jovens acabam por enveredar por estilos de vida mais negativos. Segundo Rui Martins “é um espaço inter-geracional, onde se espera que através de um conjunto de actividades de diversão, de vida saudável, de gestão de conflitos e de desenvolvimento de competências pessoais e sociais, seja possível diminuir situações de risco. “Pela experiencia que temos na área do tratamento, sabemos que, de facto, a afectividade tem um grande peso no processo de encontrar uma solução para os problemas”, remata Rui Martins.

Já a Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 (APPT21) gere o Centro de Desenvolvimento Infantil “Diferenças” que apoia do ponto de vista clínico, terapêutico, escolar e social crianças portadoras de Trissomia 21 e Défices Cognitivos com ou sem causas conhecidas. Uma das iniciativas da associação foi juntar designers na criação de peças com “erros genéticos”: relógios, chávenas, clips e móveis “diferentes” cujas receitas da vendas reverteram a favor da organização. O projecto cotado em bolsa “Um negócio que faz a diferença” pretende continuar a seguir esse caminho: produzir e vender mais peças como forma de tornar auto-sustentável toda a vida financeira do Centro “Diferenças”. Segundo Miguel Palha, médico e presidente da APPT21 “com este projecto nós mudámos o nosso paradigma como instituição e hoje, em vez de dizermos que devemos respeitar as diferenças, a nossa grande utopia é valorizarmos as diferenças.”

Por fim, a Operação Nariz Vermelho acredita que rir é o melhor remédio, mas resolveu transformar a afirmação numa pergunta e ter a certeza. O projecto cotado em BVS, além de dar resposta ao pedido do Hospital Universitário de São Marcos, que desde 2006 aguarda a possibilidade de ter os Doutores Palhaço na sua ala pediátrica, vai usar essa intervenção para estabelecer uma parceria com uma universidade, de forma a investigar e documentar o impacto da intervenção do Doutor Palhaço junto das crianças hospitalizadas, analisando efeitos físicos, emocionais e psicológicos.

Na cerimónia de lançamento da BVS, depois de brincar com palavras complicadas usadas na Bolsa de Valores, a presidente da associação, Beatriz Quintela, tira o nariz de palhaço para que todos percebam que não está a brincar e deixa expressa uma convicção: “ Espero que um dia, as nações possam ser avaliadas por esta bolsa de valores e não pela outra.”

Para ser investidor social, aceda ao site http://www.bvs.org.pt/  conheça melhor cada um dos projectos cotados e faça o seu investimento.